Como nossos pais: uma reflexão sobre gênero

Embora tenha estudado sobre gênero, me encantado com Simone de Beauvoir, e percebido que o tema é muito relevante para nossa formação, apenas há pouquíssimo tempo consegui perceber em profundidade o quanto uma formação machista afetou quem eu sou...
Sou a filha mais nova de dois irmãos homens, quando pequena eu arrumava a cama de meus irmãos, e era formada para pensar o mundo dividido em coisas de homem e coisas de mulher.
Minha mãe, como boa esposa, servia meu pai, se preocupando com seu bem estar, esquecendo-se de si para se doar a ele, a nós e ao lar.
Eu nunca me enquadrei nesse mundo tão opressor, sempre contestei essas divisões e não me submetia a esse modelo; o que me rendeu na infância o título de pessoa que gosta de “dar o cano” no trabalho, de não enquadrada, de esquisita...
Não achava justo as coisas como eram e não entendia porque eu tinha que ser uma escravinha do lar, enquanto meus irmãos gozavam de uma liberdade muito maior que a minha.
Hoje, tentando compreender melhor esse ser que habita e mim, tenho mergulhado nas profundezes, buscando tudo aquilo que me levou a ser quem sou...
Incrível perceber que em alguns sentidos me identifiquei muito mais com meu pai que com a minha mãe... Meu modelo era o masculino. Queria a mesma liberdade e autonomia que ele tinha e não a subserviência feminina imposta pela sociedade.
Meu pai era caminhoneiro, ia e vinha, sem grandes preocupações com o andamento do lar, coisa que ficava ao encargo de minha mãe, que sozinha tinha que dar conta de tudo... Meu pai era a base econômica de sustentação da casa, e uma figura doce e carinhosa que aparecia de tempos em tempos, cheio de presentes e afagos...
Eu queria aquele desprendimento, aquela liberdade. E busquei esse padrão...
Hoje me auto analisando percebo que em um longo período segui uma vida essencialmente prática, ligada a resolução de problemas de forma rápida e individual... pensava que pedir ajuda ou dividir as questões com alguém apenas iria atrasar o processo, não tinha espaço para “frescuras” e romantismos. Percebo que essa praticidade muitas vezes escondeu um grande egoísmo. No fundo era eu querendo resolver minhas coisas sozinha e o mais rápido possível, sem a intromissão de ninguém.
Penso que o padrão machista de organização das coisas preconiza a liberdade do ser baseada na individualidade e no egoísmo. Para superá-lo, mais que lutarmos enquanto mulheres, temos que auxiliar os homens a perceberem que não é um padrão saudável, mas que “beneficia” uns em detrimento de outros e assim não pode haver equilíbrio e paz... e eles acabam perdendo o que realmente importa na vida, que é o investimento em pessoas e sentimentos, o dividir e somar com aqueles que amamos... ou seja, a tal da “sensibilidade feminina”, que nada mais é que altruísmo, atitude solidária e não egoísta diante da vida... 
Ainda temos muito a avançar.

Fonte imagem: http://www.saocarlosemrede.com.br/files/noticia/photo/9657/noticia_pai.jpg


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